Comissão Técnica Independente liderada por Professor da ESAC já apresentou relatório

O professor da ESAC, Joaquim Sande Silva, liderou a Comissão Técnica Independente para avaliação dos incêndios de agosto de 2025 em território de Portugal Continental, cujo relatório final dos seus trabalhos foi entregue à Assembleia da República no dia 29 de julho de 2026.

Constituída por 12 membros, a comissão foi criada para analisar os incêndios rurais ocorridos em 2025, avaliar as suas causas, circunstâncias e impactos, analisar o funcionamento do sistema de prevenção e combate a incêndios rurais, bem como formular recomendações destinadas a prevenir situações futuras, tendo a análise constante no relatório abrangido o conjunto da época de incêndios rurais de 2025, em Portugal continental, e recorrido também ao período de 2018 a 2024 para efeitos de comparação e para avaliar as medidas adotadas após os incêndios de 2017.

Dos trabalhos da Comissão resultaram as principais conclusões:

  • Em 2025 registaram-se 8256 incêndios rurais e 271 587 hectares de área ardida, correspondendo à quarta maior área queimada desde que existem registos oficiais. O incêndio do Piódão, com mais de 65 mil hectares, foi o maior incêndio registado em Portugal.
  • As condições meteorológicas do verão de 2025 constituíram um dos principais fatores explicativos da severidade da época de incêndios. Contudo, a área ardida superou o que seria expectável face a essas condições, evidenciando que a resposta operacional e as condições do território foram insuficientes para conter a expansão do fogo.
  • A gestão de combustíveis permaneceu num nível estruturalmente baixo face ao planeado, com predomínio de intervenções lineares insuficientes para alterar significativamente o comportamento e a propagação dos incêndios à escala da paisagem. A informação recolhida permite identificar uma incapacidade sistémica e uma insuficiência estratégica nesta matéria, mas não permite concluir pela existência de negligência de entidades com responsabilidade na gestão do território.
  • A resposta operacional foi predominantemente reativa. Foram identificadas limitações na antecipação do comportamento dos incêndios, no reconhecimento e no aproveitamento das oportunidades de supressão, no apoio técnico à decisão, na documentação das operações, na qualificação e especialização dos recursos humanos e na sustentação prolongada do dispositivo, incluindo a gestão dos períodos de descanso e da fadiga dos operacionais.
  • Em particular, os resultados evidenciam uma sistemática concentração de recursos junto a povoações e estradas, não intervindo para impedir a progressão dos incêndios para outras áreas e, dessa forma, vindo a afetar outras povoações.
  • Persistem assimetrias significativas entre municípios na capacidade de comunicação de emergência e na preparação das populações. A ausência de procedimentos uniformes de coordenação e validação favorece a circulação de informação não confirmada e de mensagens contraditórias, podendo comprometer a confiança pública e os comportamentos de autoproteção.
  • No plano das políticas públicas, a criação do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais e do Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais estabeleceram um novo paradigma no plano formal, mas diversos instrumentos necessários à sua operacionalização ficaram por concretizar. Mantêm-se válidos os três princípios basilares do Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais (aproximação entre prevenção e supressão, profissionalização, qualificação e especialização da intervenção), mas a sua aplicação efetiva no terreno continua longe de ser alcançada.
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    Decorrentes destas conclusões, a CTI emana um conjunto de 20 recomendações, acompanhadas de uma proposta de calendarização e da identificação das entidades responsáveis pela sua execução:

  • Aprovar um programa de execução dos princípios do PNGIFR
  • Reforçar a especialização funcional entre GFR e PCIR, sob a mesma unidade de comando
  • Integrar prevenção e supressão
  • Reforçar o sistema de qualificação dos agentes
  • Reforçar a capacidade nacional permanente especializada em GFR
  • Dotar a estrutura operacional da ANEPC de uma carreira profissional
  • Reforçar a capacidade da FEPC
  • Criar contratos-programa com responsabilização e objetivos bem definidos
  • Rever a formação de acesso aos quadros de comando
  • Especializar o comando operacional em incêndios rurais
  • Certificação obrigatória para o exercício de funções de comando em incêndios rurais
  • Rever o sistema de gestão de operações
  • Melhorar a informação de suporte à gestão operacional e o registo dos grandes incêndios
  • Melhorar a gestão de recursos humanos no dispositivo de supressão
  • Racionalizar o ataque inicial em função do potencial de expansão dos incêndios
  • Dotar o IPMA de uma capacidade permanente de pirometeorologia
  • Adotar um Plano Estratégico de Comunicação Operacional durante ocorrências de emergência
  • Estabelecer um protocolo nacional de cobertura jornalística de incêndios
  • Expandir os programas Aldeia Segura e Pessoas Seguras
  • Aprovar um referencial nacional de capacidades e qualificação dos SMPC
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    Assentes essencialmente no quadro institucional existente, estas recomendações são apresentadas como prioridades para a concretização dos princípios já aprovados e para o reforço da capacidade de prevenção, preparação e resposta aos incêndios rurais.

    O relatório, disponível na página da internet da Assembleia da República, tem sido amplamente divulgado e comentado na comunicação social.